O Quebra Costas descobriu que a filha única do ex-sindicalista David Pedra tem um passado tenebroso. Primeiro, adquiriu “a escola” das grandes negociatas quando trabalhou com o ex. Secretário Regional Pereira de Gouveia. Depois ganhou traquejo entre a máfia do porto (ver caixa ao lado), enquanto simultaneamente tirava um segundo curso universitário em Lisboa, pago pela ETP.
Contudo, não foi só no caso do porto do Funchal, que Cristina Pedra foi apertada pela Polícia Judiciária (PJ). Em Dezembro de 2009, ela, juntamente com o ex-Padre de São Vicente, António Paulo de Sousa, foram constituídos arguidos, por suspeita de desvio de subsídios.
Copiando os Sousas, os Pedras constituíram dezenas de empresas, uma delas, a “Lúmen Sacra, Lda.”, formada em 2000, dedicava-se ao negócio de santinhos, velas e todo o tipo de artigos religiosos. (O marido de Cristina foi visto empoleirado, a montar sinos e outros mecanismos, em campanários de igrejas).
Esta ligação empresarial dos Pedras à Igreja madeirense foi o ponto de partida para negócios milionários de sacristia, nomeadamente projectos e cursos de formação subsidiados por fundos europeus, e ministrados em quase todas as paróquias da Madeira e Porto Santo. O volume foi tal ordem, que levou os Pedras a construir um mega centro de formação, o edifício “Gestlider”, junto ao cemitério de Santo António (esta construção foi objecto de polémica, pois não cumpriu as directrizes do PDM).
O MÓBIL DO CRIME
Foi nestas andanças “paroquiais”, que Cristina conheceu o citado Padre de São Vicente, António Paulo, e juntando-se “a fome com à vontade de comer”, resolveram criar em 2005, duas empresas de inserção social, no centro Social, Cultural e Paroquial de São Vicente, a Mannus Arte, dedicada à confecção de velas religiosas e pintura de azulejos, e a Safel Vicentina, direccionada para serviços de limpeza e apoio familiar, tudo na mira dos chorudos subsídios do FSE (Fundo Social Europeu),concedidos no âmbito de um programa contra a exclusão social, sob a tutela do instituto Regional de Emprego (IRE).
Mal arrancaram as aulas de formação e obras de adaptação das instalações no centro paroquial de São Vicente, em Julho de 2005, começaram a correr rumores na localidade, acusando o padre e aCristina Pedra de montarem um ardil, para “comerem” o dinheiro dos subsídios. A própria igreja desconfiou da tramóia e, passados apenas 3 meses de vigência do programa de inserção, é nomeado um novo padre, o sacerdote Humberto Mendonça, que põe a boca no trombone, pois ao analisar a documentação, descobre “factos estranhos” e diversas irregularidades, “contrárias à lei canónica”, levando a igreja a desistir dos projectos em causa. Aliás, a barraca é de tal ordem, que o Bispo D. Teodoro de Faria vê-se obrigado a declarar em Outubro de 2006, que “a criação de duas empresas de inserção social no centro paroquial não foi autorizada, e excedeu os limites e o modo de administração” do centro paroquial.
ENTRA EM CAMPO A PJ
Em 2007, uma carta anónima põe em campo a Polícia Judiciária, que após aturadas investigações, descobre, boquiaberta, que o Padre António Paulo chegou a preencher e assinar os próprios orçamentos dos equipamentos a adquirir para essas empresas de inserção, e que as facturas próforma estavam com os preços empolados, com valores muito acima do mercado, justamente para engrossar os montantes a receber das ajudas comunitárias. Pior ainda, verificou-se que a maioria das empresas que forneciam os orçamentos à “Mannus Arte” e à “Safel Vicentina” eram sociedades do universo empresarial da gestora e responsável dos projectos de Cristina Pedra, tais como:
“Softlider; Smarthouse; GestliderII e Gestlider Papelaria e Decoração”. A PJ também apurou que o instituto Regional de Emprego (IRE) transferiu para o Centro Paroquial, à conta da “Mannus Arte”, o subsídio de € 41.099,01. Desse dinheiro, parte foi gasto em obras de adaptação e equipamentos, e outra parte, cerca de € 9.000,00, foi para pagar as empresas de Cristina Pedra, que deram formação e venderam material de escritório; no final, os investigadores não deram com o paradeiro de cerca de € 2.788,56.
Igualmente, o centro paroquial recebeu para a “Safel Vicentina”, o valor de € 41.668,23 do IRE. Parte desse dinheiro deveria ter sido usado, exclusivamente, para a aquisição de equipamentos básicos, como era exigido pelo IRE, e não para outros fins. Só que Cristina Pedra, sabendo de antemão que a diocese queria acabar com o forrobodó, adiantou-se, e no dia 29 de Julho, ainda não se completara uma mês de aulas, ordenou ao Padre que lhe passasse o cheque de €12.150,00 para pagar a factura da sua empresa de formação. Entretanto, no meio destas trocas e baldrocas, ninguém conseguiu justificar à PJ, o desaparecimento de € 8.688,60, como também não forneceram ao IRE, os documentos justificativos das despesas.
MP PENEIROU A FRAUDE
O mais interessante é que, até hoje, o Centro Paroquial de São Vicente não devolveu os € 82.767,24 do subsídio concedido pelo IRE (que também se encolheu, com medo da Pedra e da Igreja), às empresas “Mannus Arte” e “Safel”, e mais hilariante ainda, é que estas empresas de inserção socioprofissional, tinham apenas 10 alunos/formandos.
Após as investigações da PJ, o Ministério Público, como é seu hábito, “peneirou” todas as fraudes detectadas, e em Abril de 2010, deduziu acusação contra dois arguidos, unicamente no crime de desvios de subsídios. Os acusados, bem escudados por advogados de Lisboa, pediram logo a abertura de instrução.
Em Março de 2011, o juiz do tribunal de São Vicente decidiu não pronunciar os arguidos do crime que eram acusados, o MP não recorreu, como é norma nestes casos de colarinho branco, e a justiça voltou pachorrentamente à sua habitual função, de perseguir pilha galinhas e ladrões de mercearias.

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