segunda-feira, 11 de outubro de 2010

O estrabismo alegre. Por José António Saraiva


Quando Passos Coelho apresentou o seu tímido projecto de revisão constitucional, os socialistas gritaram em coro: «Aqui d El Rei, que ele quer acabar com o Estado Social!».
O Estado Social transformou-se numa espécie de bandeira dos socialistas: o PSD queria destruí-lo, ao PS cabia o papel de ser o seu guardião.

Adivinhou-se que esse seria o grande tema do futuro.

Manuel Alegre disse alegremente que, se fosse eleito Presidente da República, vetaria todo e qualquer diploma contra o Estado Social.

Será que esta gente toda sabia o que estava a dizer?

José Sócrates, na semana passada, já começou a dar umas machadadazinhas no dito Estado Social.

E vai ter de dar mais e mais e mais.

Ele e os seus sucessores.

Porque este Estado Social - também chamado Estado Providência -, por muito bom que seja e o queiramos defender, é pura e simplesmente insustentável.

Por duas razões - uma interna e outra externa.

Internamente, porque os impostos necessários para o sustentar estão a asfixiar a economia.

Um país, para progredir, tem de investir em actividades reprodutivas.

Capazes de produzir riqueza.

Ora, o aumento progressivo dos impostos (para sustentar o Estado Social... e o outro) está a retirar cada vez mais capital ao investimento, contribuindo para o empobrecimento do país.

Por este caminho, a perspectiva é tornarmo-nos cada vez mais pobres.

E o Estado Social ser cada vez mais difícil de suportar.

Por outro lado, com o avanço da globalização, os habitantes das áreas do mundo mais desenvolvidas vão necessariamente ter de passar a viver pior - porque as condições de vida noutras áreas do mundo vão necessariamente melhorar.

Nesta matéria, o mundo funciona cada vez mais como um sistema de vasos comunicantes : para uns ganharem mais, outros vão ter de ganhar menos.

As deslocalizações de empresas e de fábricas do Ocidente para o Oriente, provocando desemprego de um lado e aumentando a procura de mão-de-obra do outro, vão ter como consequência uma queda de salários na Europa (e América do Norte) e uma subida na Índia, China, etc.

O Estado Providência, tal como o conhecemos, tem - por isso - os dias contados.

Tem de mudar de paradigma.

Logo à partida, só deve existir para quem precisa.

Um indivíduo não deve morrer por não ter meios financeiros para se tratar; mas, simultaneamente, quem tem posses não deve recorrer ao auxílio do Estado.

Assim, o ensino não pode ser indiscriminadamente gratuito, a saúde não pode ser indiscriminadamente gratuita, as pessoas não vão poder receber todas por ano 14 ordenados por 11 meses de trabalho, as reformas não vão poder ser todas por inteiro e assim sucessivamente.

É mau?

A questão não é ser mau nem bom - é que não há alternativa.

Pela simplicíssima razão de que o que nós produzimos não dá para pagar o sistema assistencial que temos.

Será curioso observar agora como o Partido Socialista, Manuel Alegre e o Bloco de Esquerda vão conviver com este problema.

É claro que o BE e Manuel Alegre poderão prometer o que lhes venha à cabeça, porque prometer não custa.

O BE e Alegre podem dizer que é possível ao mesmo tempo diminuir o desemprego, aumentar os salários e as prestações sociais, não mexer nos impostos, alargar (ou pelo menos não contrair) o Estado Social, e ainda, se calhar, fazer crescer a economia.

Eles podem dizer tudo isso.

Mas o PS não pode - porque está no Governo e é confrontado com a realidade.

Por muito que Sócrates tenha vocação para se contradizer, negando hoje o que ontem disse com toda a convicção, a sua margem de manobra é agora muito mais pequena.

Assim, vai ser interessantíssimo ver como evolui esta situação.

Alegre vai ter de se torcer todo para não criticar muito o PS pelos ataques aos trabalhadores e ao dito Estado Social, sob o risco de Sócrates e os socialistas se distanciarem ainda mais dele; e, sem os votos dos socialistas, Alegre não é ninguém.

Mas, ao mesmo tempo, Manuel Alegre vai ter de fazer equilibrismo no arame para não parecer que, ao não criticar Sócrates e o Governo, traiu a esquerda e abandonou os seus princípios.

Um exemplo: na anunciada greve geral promovida pela CGTP (e certamente apoiada pelo BE) que posição vai Alegre tomar?

Com um olho no Governo e outro na oposição de esquerda, Manuel Alegre arrisca-se seriamente nesta campanha presidencial a ficar estrábico.


jas@sol.pt


Fonte: SOL

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