segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Madeira não acarinha campeão


Ser campeão de Portugal de Ténis era um objectivo da época? Sim, até porque o ano passado marquei presença na final, o que me fez acreditar que poderia ser possível.

Esse era o sonho de criança? Desde miúdo que sonhava em ser campeão nacional, até porque já tinha sido campeão de todas as categorias jovens e só me faltava este título, embora tivesse consciente que com 18 anos era complicado ser campeão de Portugal, mas ainda bem que concretizei este sonho.

Em que estrutura está agora integrado? Na Clube Escola Ténis de Oeiras, onde sou orientado pelo Cunha e Silva mas tenho à minha volta vários técnicos, que me acompanham em todos os treinos, analisam os erros, corrigem e gerem a minha preparação, até no plano psicológico. Lá os treinos são todos os dias diferentes, tenho parceiros de maior qualidade, nunca são os mesmos, o que não só me faz evoluir como evita a saturação de estar a jogar sempre com os mesmos jogadores.

A ida para Lisboa mudou o quê na preparação e na carreira? Mudou tudo, o número de horas de treino, os parceiros e a equipa técnica com quem trabalho, o programa físico e até a alimentação teve de mudar.

A intensidade teve de mudar? Sim e bastante. Estou a trabalhar das 10 ao meio dia os aspectos técnicos, descanso e volto ao court a partir das três da tarde e ao final do dia ainda faço treino físico, no ginásio. São seis dias por semana de trabalho e só descanso ao domingo.

A vida é só ténis? Sim, desde Novembro do ano passado que decidi apostar tudo no ténis. Entrei na faculdade para estudar medicina, mas vi logo que o curso não era conciliável e por isso adiei a minha formação, sendo meu desejo um dia ser médico.

A aposta valeu a pena? Sim, até porque a minha equipa técnica considera que superei os objectivos que tinham traçado para esta época, pois até nem julgavam que poderia ser campeão tão jovem. Em termos internacionais a meta era o TOP 1000 e neste momento sou o 780.º jogador do mundo, pelo que fiz mais pontos que o esperado pelos técnicos.

Os objectivos foram alcançados? Sim, até porque era para conseguir cinco a seis pontos, o que já era muito bom pois conquistar pontos em torneios onde marcam presença bons jogadores, alguns com 30 anos, muito experientes, é muito difícil. Já garanti doze pontos, o que deixou a minha equipa técnica muito contente.
O que está planeado até ao final desta temporada? Estamos a preparar uma deslocação de quatro semanas para a América do Sul, onde há um circuito a partir de Outubro.

"Apoio das entidades e empresas seria motivo de orgulho e de confiança no meu valor"

Martim Trueva não está arrependido da sua opção de apostar na profissionalização e integração no clube de Cunha e Silva, "embora isto só dure até aos 30 anos".
Cumprida esta primeira época, as próximas etapas "passam por uma conversa com a minha equipa técnica. Já temos os próximos objectivos, que passam por baixar cem ou duzentos lugares no ranking mundial ".

Deixando claro que "o ténis só compensa se formos jogar lá para fora, onde podemos ganhar pontos, subir no ranking e pensar em ganhar dinheiro", o madeirense prefere pensar "ano a ano. Não vale a pena dizer que quero atingir o top dos cem melhores jogadores do mundo pois para além de difícil, isso depende de muitos factores".

Para ter sucesso, Trueva sabe que é preciso "trabalhar muito, contar com uma boa estrutura técnica e beneficiar de apoios". O seu desejo é ser apoiado a partir da Madeira, pois "em termos de auto-estima, do orgulho em representar a minha terra de ver que as pessoas acreditam em mim, no meu valor, isso seria muito importante nesta fase da minha carreira".

Sem apoios ou palavras de incentivo

Apesar de se assumir como profissional, Martin Trueva reconhece que "infelizmente não tenho patrocinios. Costumo dizer que tenho 'paitrocínio', ou seja a ajuda dos meus pais".

O campeão lamenta que "as empresas da Madeira, as entidades oficiais e até a Associação de Ténis não me apoiem em nada", o que leva o atleta a não se sentir acarinhado "talvez porque o ténis na Região não tem muita expressão. Sou mais acarinhado em Lisboa".

Beneficiando do estatuto de atleta de alta competição do IDRAM, Trueva não ganha nada com isso "pois os apoios no passado eram dados através do clube e não me chegavam. Agora como represento um clube do continente, o IDRAM diz que não me pode apoiar".

Apesar de ter conquistado um título que há várias décadas não era conquistado por um madeirense, o pupilo de Cunha e Silva revela que só foi felicitado a partir da sua terra "por alguns treinadores. Da associação ou de outras entidades não recebi uma palavra, mas devo confessar que não esperava, para mim o mais importante é o apoio da família".

Reconhecendo que já teve momentos de saturação, sobretudo "quando os resultados não são bons e duvidamos da nossa capacidade e se vale a pena tanto esforço", o madeirense diz que "o apoio da família e dos treinadores são muito importantes nestes momentos".

Já vale a pena ser profissional de ténis

Martim Trueva elege os torneios em Canárias como um dos momentos altos do ano "pois ganhei jogadores muito bem cotados, o que me levou a pensar se ganho a estes, então posso subir muito mais no ranking".

Não aceitando a ideia que não exista condições em Portugal para apostar no ténis, o madeirense diz que " a realidade é hoje completamente diferente, pois temos cada vez melhores jogadores e é só olhar para a carreira do Frederico Gil e do João Machado ou do Leonardo Tavares, jogadores que estavam entre os quinhentos melhores e que agora estão mais próximos do TOP 100, mostrando que vale a pena apostar e ser profissional de ténis em Portugal".

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