
Nesta entrevista o deputado do PND diz os motivos pelos quais foi afastado PCP - cujo a ala "Estalinista" merece duras criticas - e explica porque o PND na Madeira não é um partido de direita.
Tribuna – Vai à Festa do Avante?
José Manuel Coelho – Vou, claro. Já há 28 anos que vou a essa festa.
Tribuna – Todos os anos?
JMC – Sim. Só falhei um ano porque não tinha dinheiro.
Tribuna – Vai à festa apenas pelo facto de ser comunista ou existem outros motivos que o levam a ir?
JMC – É única no género em Portugal. É uma festa de grandes dimensões, em cujo espaço estão representadas todas as regiões do país, através da gastronomia e do folclore. Tem ainda três grandes palcos que, em simultâneo, recebem artistas e bandas de todo o mundo, além de ter artistas de teatro e animação em todo o recinto. É muito giro.
Tribuna – Costuma encontrar muitos madeirenses lá?
JMC – Os madeirenses radicados no continente vão muito à festa para encontrar conterrâneos e para matar saudades da gastronomia madeirense. O maior restaurante da festa o ano passado foi o da Madeira. É pena que o GR, por sectarismo político, não aproveite a festa para promover a Região no continente.
Tribuna – Portanto, os madeirenses que lá encontra não são militantes do PCP?
JMC – Vai muita gente que não é do PCP. A maioria não é do partido.
Tribuna – Lembra-se de algum episódio que o tivesse marcado em especial ao longo destes anos?
JMC – Todos os anos são dedicados a um tema e há sempre coisas interessantes. Mas uma das que mais me marcaram foi a festa na qual esteve patente uma exposição de fotografia de Sebastião Salgado que alertou para os genocídios ocorridos em África.
Tribuna – Desde quando é comunista?
JMC – Aderi ao PCP em 1977 e a maioria das coisas que sei aprendi-as no partido. O PCP é o único que dá formação ideológica e política aos seus militantes.
Tribuna – É mesmo militante?
JMC – Sou, mas o meu cartão já está desactivado.
Tribuna – Porquê?
JMC – As relações de trabalho e de produção alteraram-se. Os operários de hoje vivem numa situação diferente. O PCP tem duas facções: os renovadores e os ortodoxos. Os primeiros compreendem isso e adaptam as lutas a essa realidade. Mas os outros são sectários, estalinistas, intolerantes e perseguem quem tem uma ideia inovadora.
Estes muitas vezes são avessos às críticas e fazem com que o partido fique imobilizado. Começam a pôr na prateleira os que têm uma mente mais arejada. Foi o que aconteceu comigo: fiz umas críticas das quais não gostaram. Como as críticas estavam fundamentadas nos estatutos do PCP, não podia ser sancionado. Então eles, com falta de espírito auto-crítico, deixaram de me chamar às reuniões e puseram-me de parte.
Como nunca mais actualizei as quotas, perdi o vínculo com o partido. Mas, no íntimo, sou sempre comunista. Sou como os católicos que deixaram de ir à igreja, mas são sempre crentes.
“Esquerdistas ajudaram PPD a se implantar”
Tribuna – Quando entrou no PCP já tinha acontecido o 25 de Abril...
JMC – Eu participei no 25 de Abril.
Tribuna – Ser comunista nessa altura era mais difícil do que actualmente?
JMC – Acho que hoje é pior. Actualmente, a perseguição não é física, mas económica. Qualquer pessoa que queira aderir ao PCP tem logo dificuldades, seja para obter emprego, obter licença de construção da casa ou a ligação da luz. Há um polvo jardinista intolerante que prejudica os comunistas até nas pequeninas coisas.
Tribuna – A época em que entrou no PCP era a altura da Flama e das bombas...
JMC – Era, mas já estava a esmorecer a força da Flama.
Tribuna – Na altura, quem era o líder do PCP na Madeira?
JMC – Quando vim, era João Bernardino.
Tribuna – Há pessoas que hoje ocupam cargos de poder na Região que, na altura, eram comunistas?
JMC – Havia, mas não eram bem do PCP. Eram os esquerdistas da UDP. É o caso do secretário da Educação e do secretário do Equipamento Social que, inclusive, foi um dos juízes no famoso tribunal popular em Machico que julgou dois rapazes da Flama.
Mas é preciso ter em atenção que esses esquerdistas não tinham uma formação de esquerda. Não combatiam com a cabeça, mas com o coração, queriam a revolução no imediato. Eram tão radicais que, inconscientemente, acabaram por prestar um serviço à direita e contribuíram muito para que o PPD se implantasse na Região.
Enquanto o PCP tinha um discurso moderado, em defesa dos pobres e desfavorecidos, eles atemorizavam as pessoas. As suas posições radicais impediam as massas de aderir à revolução nas zonas mais afastadas do país, em especial nas ilhas. Fizeram a revolução andar para trás na Região. As pessoas pensavam que éramos todos comunistas.
Já o Lenine dizia que o esquerdismo é a doença infantil do comunismo. O esquerdismo é composto por intelectuais e estudantes da pequena e média burguesia que não se submetem à disciplina do Partido Comunista e, como tal, criam o seu próprio partido.
Tribuna – Hoje ainda restam no PCP dirigentes do tempo em que entrou no partido?
JMC – Sim, muitos. O dr. Rui Nepomuceno, por exemplo. Uns evoluíram e outros cristalizaram. Na Madeira, o PCP tem duas linhas: a do padre Edgar – que tem mais abertura política – e a de Leonel Nunes – que está completamente cristalizada e parada, deixou-se ultrapassar no espaço e no tempo.
A “ajuda” de D. Teodoro Faria ao PCP
Tribuna – Acha que na Madeira o PCP já tem mais abertura?
JMC – Paradoxalmente, quem conseguiu tirar o PCP da situação em que estava foi o bispo D. Teodoro Faria. O primeiro deputado do partido foi Mário Aguiar, que depois acabou por sair chateado do PCP. Seguiram-se quase 15 anos de travessia no deserto, sem conseguir eleger qualquer deputado. O partido não tinha visibilidade, estava imobilizado.
Nessa altura, veio para a Região o padre Frederico, ainda diácono. Depois deu-se a famosa condenação em tribunal. A defesa do bispo do Funchal – que disse que o padre Frederico estava a ser crucificado como Cristo – fez com que aos padres sérios “lhes saltasse a tampa”. Vários revoltaram-se contra a situação, o primeiro foi o padre Tavares.
Ele já era assediado para ser candidato, tanto pela UDP como pelo PCP. Mas nunca quis, até se dar o caso do padre Frederico. Foi com este erro que a Igreja deu força ao PCP. Com o padre Tavares dissipou-se o preconceito contra o PCP. Ele foi eleito deputado e o partido começou a receber dinheiro. Foi nessa altura que surgiu o meu afastamento.
Comecei a ver que os estatutos do partido não estavam a ser bem cumpridos. Havia a direcção e o secretariado, que tinha de prestar contas ao primeiro. Alertei para a necessidade de cumprir os estatutos, se criticávamos o PSD por falta de transparência, tínhamos de dar o exemplo. Mas eles não gostaram: Leonel Nunes começou a dizer que nem os capitalistas exigiam tantas contas. Vi então que a ala conservadora estava a funcionar.
Expliquei-lhes que havia dois tipos de camaradas: os que lutavam por amor à camisola e os que lutavam por interesses pessoais e eu era dos primeiros. O que os irritou ainda mais foi eu ter começado a denunciar o facto de Diamantino Alturas “estar feito” com a ASSICOM, porque interessava ao poder que o sindicato estivesse paralisado. Era um manancial para os patrões trabalhar com operários que não conheciam os seus direitos.
No tempo de João Bernardino, cheguei a pagar quotas no sindicato para entrar numa lista e destronar o Alturas da direcção, mas não consegui. O PCP engoliu esse sapo até hoje. Comecei a criticar Diamantino Alturas e eles não gostaram, mas como estatutariamente não tinham razões para me expulsar do partido, foram-me deixando esquecido.
A ala estalinista do partido considerou-me um traidor. Nessa altura, não recorri à direita nem ao PSD, pedi ajuda à UDP e fiquei lá. Mas foi pior a emenda que o soneto. Quem mandava lá eram Guida Vieira e o marido e então acabei por deixá-los.
Tribuna – No futuro acha que conseguiria voltar a ser militante do PCP?
JMC – O partido tem de se adaptar às novas situações e deixar de ter ideias estalinistas porque as pessoas associam o Partido Comunista aos genocídios empreendidos pelo Estaline. Também não podemos associar a Igreja Católica e a mensagem de Cristo com os morticínios do tempo da Inquisição. Estes dois casos são exemplos de desvios.
O desvio radical esquerdista do Estaline foi uma aberração, uma série de crimes cometidos numa fase histórica da luta comunista, mas o partido não tem culpa disso. Por isso, é preciso neutralizar essa ala mais radical e reeducá-la.
Tribuna – E se isso acontecesse gostaria de voltar?
JMC – Não preciso de voltar, porque sou sempre comunista. O facto de não ter cartão é uma mera burocracia. Aplico os princípios comunistas na minha vida diária.
“PND 'emprestado' a um grupo de cidadãos”
Tribuna – É agora deputado do PND, partido conotado com a extrema direita. Como é que isto acontece?
JMC – Sigo o pensamento do poeta e dramaturgo alemão Bertold Brecht: “Há homens que lutam um dia e são bons, outros lutam um ano e são melhores, há os que lutam muitos anos e são muito bons e há os que lutam toda a vida, que são imprescindíveis.” O PCP afastou-me da luta, mas como sou um revolucionário profissional, arranjo outras formas.
Como estava desempregado politicamente, antes de vir para o PND colaborei com o jornal clandestino editado em Gaula, “Democratas de Gaula”, de pessoas ligadas ao PS e à UDP, que fazia denúncias e atacava a corrupção. Ajudava a distribuir o jornal e corrigia a linguagem de algumas notícias. Queria ver o comportamento do estado de direito e vi que a justiça, em vez de investigar as denúncias e os corruptos, perseguia-nos a nós.
Tive uma busca da PJ na minha casa e na casa dos meus colegas. Como vi que a repressão era muita decidi falar do caso ao “Garajau”, que entretanto tinha surgido e não conhecia. Fizeram uma reportagem e esta situação criou um efeito dominó, já que deu força à luta de João Carlos Gouveia contra o regime e a corrupção instaladas na Madeira.
O PND surge porque os editores do “Garajau” eram muito amigos de Baltazar Aguiar, que é dissidente do CDS. O cunhado dele tinha criado o PND na Madeira, mas não havia adesão das pessoas, porque à direita do CDS não havia espaço político. O partido tinha a estrutura: existia uma colmeia, mas não tinha abelhas lá dentro.
Foi então que Gil Canha e Eduardo Welsh sugeriram criar um movimento de cidadãos que lhes permitisse alargar a sua luta através de um partido que “emprestasse” a sua estrutura, já que é impossível concorrer a eleições sem um partido. Foi o que aconteceu: concorremos como um grupo de cidadãos, sem qualquer força de direita radicalizada.
O objectivo era denunciar os crimes da oligarquia jardinista, combater o regime, ampliando o nosso auditório. As pessoas do PND são poucas: são religiosas e conservadoras, mas são pessoas com bons princípios. Essas pessoas podem estar connosco porque têm valores que não rejeitámos. Mas um projecto meramente conservador é pouco, porque a juventude não adere a esta ideologia. Por isso, tornámos o partido aberto a toda a sociedade.
Por isso, há pessoas que não têm nada a ver com o CDS: há comunistas, há pessoas do PS e do PSD e há pessoas que não têm partido. Trabalhamos todos em conjunto, não num projecto conservador radicalizado à direita. É mais do que isso, aceitamos pessoas que pensam de maneira diferente, queremos combater a corrupção.
Tribuna – Não sente que haja colisões no partido originadas pelas diferentes ideologias que existem dentro do PND?
JMC – Não. Antes de concorrermos às eleições, ficou estabelecido que isto iria funcionar assim. Portanto, ninguém briga.
Tribuna – E por parte da população...
JMC – No início, fazia um pouco de confusão, mas depois fui-lhes explicando e essa ideia foi-se esbatendo. Se sou comunista e estou aqui, isto nunca mais poderia ser um partido de direita.
Tribuna – Não acha então que existe o risco de a sua imagem ficar descredibilizada politicamente pelo facto de ser comunista e estar num partido de direita?
JMC – Não, não.
Fonte: Tribuna da Madeira de 5 / 11 de Setembro de 2008
1 comentário:
este gaje é mesmo doente mental
tristes daqueles que vão atrás dele
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